Lixo: realidade x ficção


Lixo: realidade X ficção
Enquanto no horário nobre da TV o lixão é mais um cenário para a trama da novela, fora das telas a verdade é dura

Em 31/07/2012 Por Jade Barreto e Malu Gonçalves
Desde março deste ano, a trama de Avenida Brasil, da Rede Globo, mostra a história de Rita, uma menina abandonada pela madrasta no lixão. Mas, diferentemente do ambiente lúdico e romantizado da novela, na vida real, esses locais passam por uma triste situação. São milhares de m2 por todo o País que recebem tudo aquilo que a população descarta facilmente. O saldo dessa conta é um prejuízo enorme para a sociedade – especialmente àquela que vive no entorno dessas áreas – e para o planeta.

Uma pesquisa de abril de 2012, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revelou que existem 2.906 lixões funcionando no Brasil, locais onde os resíduos sólidos são apenas despejados, sem nenhum tipo de cuidado. Quando esse material não é destinado a uma região preparada para recebê-lo, os poluentes provenientes de sua decomposição, como o chorume – aquele líquido escuro e de odor desagradável –, contaminam o solo e as águas, tornando-os impróprios a qualquer ser vivo.
É fundamental que os resíduos sejam levados para aterros sanitários, preparados com barreiras como argila e mantas de PVC, a fim de impermeabilizar e proteger a área em que serão instalados.

Onde estará o fim?
Em 2010, depois de 20 anos de discussão, o governo finalmente sancionou a Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS). Uma lei que reúne objetivos e ações a serem realizados por todas as esferas do governo em prol do meio ambiente. Entre elas está a eliminação de todos os lixões até o fim de 2014. Mas para o geógrafo Otávio Cabrera De Leo, apenas o fim dos lixões não soluciona a questão no Brasil. “É preciso integrar os setores da sociedade e investir na conscientização da população para que ela realize o descarte seletivo. Você tem de formar o cidadão para que ele tome uma atitude”, opina o especialista.
Além de acabar com esses locais impróprios para o descarte, a política prevê ainda a recuperação das áreas. O pesquisador Marco Aurélio de Castro, membro do Núcleo de Estudo e Pesquisa em Resíduos Sólidos da USP-São Carlos, afirma que esse é um processo muito difícil, que exige um plano de remediação. Além disso, local precisa ser monitorado para acompanhar a evolução do aterro e verificar o seu estágio de decomposição.

Consciência é fundamental
O primeiro caminho para gerar menos resíduos é, obviamente, produzir menos lixo. Para isso, repensar a forma como a sociedade consome é importantíssimo. O diretor-presidente da Logística Ambiental de São Paulo (Loga), empresa responsável pela coleta de lixo na região noroeste da capital, Luiz Gonzaga, acredita que muito do que é jogado fora ainda pode ser aproveitado, mas, no geral, as pessoas não têm essa cultura do reaproveitamento. É preciso investir também na coleta seletiva como forma de diminuir o volume de resíduos que chega aos aterros e reaproveitar a matéria-prima que ainda é útil. Para isso, a população precisa se engajar, assim como as prefeituras, responsáveis por operacionalizar esse sistema junto a cooperativas e associações que recebem o material reciclável. Atualmente, apenas 58% dos municípios possuem alguma iniciativa nesse sentido, segundo dados da Abrelpe. Reflexo de uma política de gestão de resíduos sólidos tardia. Enquanto o Brasil só começou a pensar em sistemas de coleta seletiva e reciclagem em meados da década de 1980, na mesma época, a Alemanha já implementava um plano para acabar com o aterramento de lixo, meta que será atingida pelo país já em 2015.

Iniciativas pioneiras
Já na capital paulista, a Loga, responsável pela coleta de cerca de 50% das 18 mil toneladas de lixo produzidas por dia na cidade, acaba de reinaugurar o Transbordo de Ponte Pequena, ponto intermediário entre a coleta e a transferência dos resíduos para a Central de Tratamento de Caieiras, na grande São Paulo. A estação, ativa desde 1997, antes funcionava a céu aberto e, para modernizá-la, a empresa teve de recuperar ambientalmente a área. “Hoje a estação possui um galpão fechado que trabalha à pressão negativa. Antes de sair, o ar é tratado por uma bateria de filtros”, explica Luiz Gonzaga, que ainda afirma que o espaço é o único no País com essa tecnologia.

Arte que imita a vida
O lixão fictício de Avenida Brasil foi inspirado no aterro sanitário de Jardim Gramacho, na baixada fluminense. Após três décadas de uso intenso, em junho deste ano o local foi fechado, sem avaliação sobre os danos ambientais e sociais causados. Os 1.603 catadores da Associação dos Catadores do Jardim Gramacho (ACAMJG) que ali trabalhavam receberam uma indenização da Prefeitura do Rio de Janeiro no valor aproximado de
R$ 14 mil, que, para alguns, ironicamente será utilizado no tratamento de doenças adquiridas no próprio aterro.
O local também serviu de fonte de inspiração para o artista plástico Vik Muniz, que produziu obras de arte com o material lá coletado e também o documentário Lixo Extraordinário (2009), que registra o trabalho realizado lá, em parceria com sete catadores da ACAMJG. O longa foi Indicado ao Oscar de melhor documentário de 2011 e ganhou diversos prêmios em festivais, como Sundance e Festival de Berlim.

Superação sempre
Você já se imaginou tirando sustento dos resíduos que produz e deposita diariamente na lata do lixo? Essa foi a realidade de Jovelita Silva Santos aos 37 anos, desempregada, sem estudo e precisando de uma renda para ajudar o marido e os cinco filhos do casal. Hoje com 48, ela se lembra de sua história como catadora no lixão de Santo Amaro e conta, emocionada, sobre esse período.

Durante três anos, ela saía de casa às 6h30 da manhã para chegar às 8h no lixão, atualmente desativado. “Eu retirava o que era reciclável, prensava e vendia para as empresas.” O dinheiro era apenas o suficiente para comprar o básico. Ela relembra ainda que, no meio de tanto lixo, sempre havia um ou outro item que, ainda que não parecesse, poderia ter utilidade. De lá, ela levou objetos para a família e para a casa, como calçados, relógios, utensílios domésticos e até uma panela de pressão, carregada debaixo do braço.
Mesmo com o olhar repressor da sociedade, ela nunca pensou em desistir. No lixão, Lita, como é carinhosamente chamada, conheceu Jocemar Silveira, hoje educador ambiental e presidente da Cooperativa Nacional de Empreendimentos Popular e Ecológico, a Coonep. Na época, por intermédio dele, que também era catador, ela passou a trabalhar em cooperativas. De lá para cá, já são oito anos de trabalho com separação de materiais recicláveis do lado de fora do lixão. Lita diz que a única coisa que deseja é dar continuidade a esse trabalho. “Espero não estar prostrada e poder ensinar tudo o que aprendi sobre reciclagem. É uma experiência muito legal. Além disso, você leva consigo um pouco de cada um daqui”.

Fotos: Divulgação/ Reprodução

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